A magia das pedras nos bolsos usados

A magia das pedras nos bolsos usados

Será que falar sobre roupa é necessariamente falar sobre moda? Creio que não. A moda é algo que se tornou ditado por uma poderosa indústria que vai da produção ao entretenimento. Das roupas, acessórios e cosméticos. A roupa vai muito além disso e não se confunde com a moda.

O papel que a roupa tem na vida humana não é necessariamente imposto por um sistema externo. É limitado o poder da capa da revista ou da vendedora da loja que diz que temos que comprar algo porque “é só o que vai se usar”. Isso porque temos senso crítico e só vamos usar aquilo que acharmos que nos fica bem.

Há na roupa um elemento interno, que é a forma com que cada um a porta, mas sobretudo, a forma com que cada um a vê e se relaciona com sua própria roupa. Cada um de nós sabe de sua relação íntima com as roupas: aquelas que usa para tais ou quais situações e jamais em outras… Não há nada de objetivo nisso: diz respeito à forma como imaginamos ser vistos com as roupas. Assim como a legging é para os esportes, a saia não é para a sala de aula, a lista vai depender de cada uma.

Usar uma roupa que pertenceu a outro momento histórico pode ser uma forma de sentir-se além do seu próprio tempo, parte de um processo histórico. Voltar a vestir uma roupa de um tempo que já passou e que a própria pessoa já vivenciou seria uma forma de trazer boas lembranças, talvez sirva para reforçar uma atitude.

Há uma cena no filme de Woody Allen, Meia noite em Paris em que a personagem Adriana, de um período tão inspirador como a década de 1920, se inquieta com o momento em que vive. Ela conviveu com Amedeo Modigliani, Georges Braque, e vivia com Pablo Picasso. Ela diz no filme que felizes mesmo eram as pessoas que viveram o final do século XIX, os primórdios da Belle Epoqué. Era como se lá sim as pessoas tivesse sido bonitas e felizes. A discussão é sobre uma idealização do passado, como se “lá” (o passado como lugar) as pessoas tivessem tido as condições de serem felizes. Vestir roupas do passado nos levaria a um momento idealizado, talvez!

A Terra do Fogo, no “fim do mundo” é um lugar gélido. Lá as yamanas pescavam sem roupas. Comiam gordura de baleia para criar no corpo uma capa de gordura que as protegeriam. Se usassem roupas no mar ficariam sempre encharcadas dadas as precárias condições de suas embarcações. Sem roupas mas não sem beleza. O corpo era enfeitado, pintado, cuidado. O corpo indígena sempre é enfeitado e delimitado por traços e linhas, sem as quais não haveria equilíbrio. É instigante pensar o papel da gordura naqueles corpos nus num tempo em que apenas a magreza parece ter valor no mundo da moda.

Encontrar roupas que fizeram parte de outro momento é trazer elementos idealizados daquele passado, seja por uma lembrança, uma fotografia, um filme, uma música, e isso nos faz bem.

É também uma forma de dizer não à massificação do momento presente. É uma forma de dizer que para vestir-se bem não há que se pagar uma fortuna nem pactuar com a mafiosa indústria da moda. Nem é vestir-se igual a atrizes de tv, muito menos querer saber quais roupas usadas pelas atrizes estão vendendo mais no site da Globo naquele mundo de merchandising.

Usar uma roupa que pertenceu a outra pessoa é pensar sobre o valor que a roupa teve ou que deixou de ter para alguém, e pode voltar a ter agora. Valor que atribuímos ao lugar desta coisa.

Não é um incentivo ao desapego no sentido fútil, aquele que as revistas ensinam: compre duas, jogue fora uma, levando a um infinito multiplicador de roupas. Peças compradas muitas vezes na promoção, mas nunca usadas.

Há roupas que esquecemos, mas algumas delas já partilharam nossa felicidade, fazem parte de nós. Reencontrá-las pode fazer lembrarmos de nós mesmas. Usar roupas que já foram usadas por outras pessoas é sim um convite à mudança e à troca, a troca de experiências.

Há um tempo atrás comprei um casacão de lã “usado”, em uma feira de rua em Buenos Aires. Quentíssimo, me abrigou quando eu era um ser que sentia muito frio. Meu barrigão de grávida se aconchegava lá dentro. Um dia, quando pus as mãos no bolso descobri um buraco e dentro dele havia uma pedra translúcida. Passou a ser mágica pra mim aquela pedra que sabe-se lá por que razão estava dentro daquele casaco.

A magia das Pedras